terça-feira, 23 de agosto de 2016

Caro Sr. João Palma-Ferreira,



   Como é que é o paraíso? É mesmo uma biblioteca tal como Borges o imaginou, aquele Borges que o senhor traduziu e ajudou a apresentar por cá?
   Espero que esta minha carta não o exaspere; nunca me pareceu o autor mais afável, esfaimado por leitores como uma hiena por carniça. Afinal de contas, não escreveu no seu diário que “à instituição vetusta da literatura portuguesa continuo a desejar todo o público que dispenso”? Não acredito, porém, que desprezasse leitores; não acredito que nenhum escritor deveras os despreze. Até aquele poeta tão injustamente catalogado como recluso, Herberto Helder, aquele poeta que apenas reclamava a banal privacidade sem a qual o indivíduo não vive mas que num homem de letras ofende, porque o querem acessível e legível como um jornal, até ele buscava uma comunhão através da leitura. Lembra-se da carta que enviou a si a 25 de Maio de 1961? “Para mim, nada seria mais valioso do que uma carta de um leitor, agradecendo os meus poemas.” Mas compreendo que o senhor preferisse a distância. Se uma simetria acidental une leitor e escritor - as três vogais, na mesma ordem - com mais precisão se unem escritor e egocentrismo. Quem escreve fala melhor consigo próprio quando virado para um horizonte deserto. Só assim se ouve a si mesmo, encontra a verdade, captura a consciência, alarga-a, aprofunda-a, acrescenta algo à realidade com palavras tão espessas quanto uma alma genuína. A via do público finda numa ravina animicida.
   De facto escrevo-lhe por agradecimento, mas sobretudo para discutir o esquecimento. O tema foi-lhe caro e talvez não se enfade por eu pegar nele. Conhece-o tão intimamente, andou enrodilhado nele como Laocoonte na serpente marítima. Passou duas décadas produtivas a varrer da nossa Casa das Letras o esquecimento, como pó, embora talvez estivesse mais a tentar mudar uma duna de lugar com uma pá. Agora é um dos olvidados. Como dois bailarinos numa dança, o esquecimento à sua volta sincroniza-se com o à volta da nossa literatura. Imagino-o a encolher os ombros e pensar, “Aconteceu o mesmo com outros muito maiores do que eu.” Sim, a história também já esqueceu Moniz Barreto, José Régio, Adolfo Casais Monteiro, João Gaspar Simões, Joel Serrão, Guilherme de Castilho, David Mourão-Ferreira, e até certo ponto Jorge de Sena. Tem em mente as suas palavras sobre ele em 1971? “Jorge de Sena é um grande poeta e um grande crítico. Sem apoios, sem as untuosidades das falinhas lisboetas, tem lutado, como poucos, pela divulgação das coisas portuguesas. Pagam-lhe com artigalhada injuriosa. Que raio de vida!” Todavia penso que ele precisava dessas investidas para avançar. Dante teve um leão, um leopardo e uma loba barrando-lhe la diritta via; Sena, piolhos e micróbios: um homem tem de se adaptar ao seu tempo. Ele era um Midas tocando no ódio e tornando-o em obras de ouro sumptuosas.
   Já o senhor Palma-Ferreira não me parece que se energizasse com polémicas, tramóias e vituperações públicas; preferia trabalhar em paz e resguardado, como um cangalheiro na sala dos fundos aprumando um defunto. Não querendo esticar demais esta metáfora, foi isso que fez a partir dos anos 70, com as primorosas edições da nossa literatura popular negligenciada: popular porque feita fora do curral oficial; negligenciada por isso mesmo. Suponho que gostasse de apresentar aos leitores essas surpresas inclassificáveis: O Piolho Viajante em 1973; O Almocreve das Petas em 1974; Vida e Morte de Tomás Pinto Brandão em 1976. Com eles vinham prefácios lavrados de lúcida erudição, súmulas de uma vida dedicada à prospecção de filões literários desconhecidos, que muito me ensinaram. Às vezes releio trechos, humildado. Como é que alguém conseguia saber tanto? Devia passar mais tempo no interior de livros do que uma traça. Lê-lo a si é descobrir toda uma literatura clandestina, muitas vezes mais divertida, inteligente e viva do que a que o suplemento literário avalizou.
   Percorrendo esse Diário I, sinto-lhe a alegria palpável por abandonar o emprego como resenhista. Deixe-me citar-lhe esta entrada de 1963, da qual que poderá estar deslembrado: “A Primavera avança e eu faço pausa nas críticas rotineiras. Estou farto de prestar aos devaneios líricos uma atenção que me deixa os nervos em franja.” Comungo muito com essa sua exaustão. Em tempos, confesso-o, tive fé em resenhistas. Mas o meu acúmulo de leituras, a minha crescente experiência, a minha narcisística crença em mim próprio, a minha violenta dissonância com os juízos da turbamulta, o meu recurso a critérios que essa profissão esconjurou com a euforia com que alunos de Arte esconjuram a perspectiva porque nem sequer a saberiam dominar, a minha preferência por linguagem em vez de conteúdo, pela exigência do leitor em vez do popular facilitismo populista, a minha curiosidade que me leva a campear pelo ignorado em vez de esperar que Nova Iorque transmita ao mundo a moda da semana, tudo isso me libertou de ter de me prostrar sobre uma poça para que vacas sagradas possam avançar sem enlamear os cascos.
   O que é ser-se um resenhista? Deixe-me partilhar a minha definição consigo. É ser alguém que reage semanalmente, mecanicamente, ao que o mercado produz, tal como os tentáculos amputados de um polvo ainda tentam alimentar um corpo que já não existe. E se o mercado só publicou fanfreluche nessa semana, então sobre fanfreluche ter-se-á de escrever. E se o fanfreluche vier de maus autores consagrados? Mas já no seu tempo teve de lidar com esse busílis. Então era a “neo-realada,” como lhes chamou Sena numa carta a si. Que fazer? Bem, elogiava-se; porque eles, por razões ideológicas, tinham de ser grandes escritores. Como Sena, Aquilino, Tomaz de Figueiredo, Agustina e alguns outros não deixou passar em silêncio a invenção de dúbias genialidades por motivos avessos ao primor. Como é que aguentou: acreditar em literatura descomprometida e ter de julgar escritores autoflagelados por ideologias? Defender a qualidade estética e julgar gente que reduzia a escrita à mensagem? Ser desencantado e julgar lirismo de pacotilha? Ser individualista e julgar demófilos obcecados por comunidade? Tenho a certeza de que está no paraíso; mas se estiver no inferno, isso é realmente pior do que ter de louvar Alves Redol?
   Agora já não temos os neo-realistas Ainda temos sobretudo neo-realistas, ou melhor, temos escritores que, estilisticamente, escrevem com igual forçada e suada dedicação ao desleixo deles, mas como já não escrevem sobre vindimas, e como adoptaram um par de técnicas modernistas com mais de meio século, na verdade agora são pós-modernistas – embora essencialmente continuem neo-realistas. A energia consumida a escamotear isso dava para alimentar uma grande metrópole.
   Imagine que ainda estava vivo e a resenhar. Semana a semana os livros caem-lhe na secretária da redacção e tantos são tão execráveis. O que fazer? Talvez se safe com uma resenha negativa por semestre, mas convém não abusar. Se for avaro com as estrelas duas semanas seguidas, começam logo a cochichar. Não quer ser marcado como difícil; se todos os outros elogiam, o que é que não está a ver? Porque é que está a ser contrário? É rancor? É inveja? É política? Que razões veladas tem? Porque as razões nunca podem ser as que escarrapachou honestamente na resenha; tem sempre de haver algo mais profundo, mais pessoal, um recalcamento qualquer, um acerto de contas. Que se livre de ter critérios ridiculamente altos e não haver ninguém, desde os Prémios Leya aos Prémios Saramago, que os atinjam! Hoje em dia as coisas não estão menos fáceis; também temos a nossa ditadura cultural. Não é política, é mais um sentimento de identidade partilhada em prol de uma marca de consumo chamada Literatura; ela está sob ataque da parte da televisão, dos videojogos, do cinema, dos telemóveis; estamos todos constrangidos a respirar simpatia por esta coisa tão fixe que são os livros. Convém não haver rixas internas que prejudiquem a imagem e os lucros. Quer dizer, que monstro falaria mal deles? Eles até fazem bem às crianças, sobretudos os piores.
   Internacionalmente, a comunidade literária está cada vez mais unida, uniformizada: os autores têm os mesmos agentes, vão aos mesmos festivais e conferências e debates sobre os mesmos temas, escrevem uns sobre os outros nos jornais, defendem sempre as mesmas causas, publicam pelas mesmas cinco ou seis grandes editoras que dominam o mercado. Mas quem pode confiar nas decisões dos editores? Bárbara Bulhosa usa a Granta para publicar amigos estabelecidos em vez de apostar em vozes novas, um dos propósitos declarados dessa revista. Maria do Rosário Pedreira nunca teve coragem para publicar um grande escritor americano obscuro que primeiro não houvesse sido avalizado por jornais nova-iorquinos. E Francisco Vale deve estar à espera que James Wood lhe diga qual dos seus escritores favoritos deve publicar a seguir: depois de Ferrante e Knausgård, quem virá? László Krasznahorkai?
   Deixe-me traduzir-lhe este trecho de um livro de Laurent Pernot, Epideictic Rhetoric:

   Os sofistas da Segunda Sofística formavam uma rede profissional, social e cultural. O ensino da retórica, discursos em público, influência política, fama, riqueza e viagens pelo mundo fora tipificaram as suas vidas. Professores e palestrantes, estavam ligados ao governo romano e às aristocracias cívicas. Apesar da sua extensão geográfica, o meio sofístico era culturalmente isomorfo. A Segunda Sofística beneficiou da coesão do mundo greco-romano durante este período. Esta coerência foi aumentada pelas relações pessoais que amiúde uniam os sofistas. Eles conheciam-se uns aos outros, directamente ou através de contactos mútuos, ouviam-se uns aos outros, e liam as obras uns dos outros.

   Concorda comigo que quando o Festival de Paraty se assemelha à Segunda Sofística há algo de errado na comunidade literária internacional?
   O suplemento cultural é apenas uma folha que tem de ser preenchida com texto para a edição sair a horas. Certamente não considerava os resenhistas paladinos da literatura. Lembra-se daquele excerto reboando de alívio? “É verdade! Estive de crítico! Era um ofício bem feio. Mas estive, durante anos, a escrever ratices num jornal de ratões. A escrever sobre: Os Escritores. E que escritores! Enormes, avantajados, in folio, in quarto, gente homericamente valorosa. E eu a perder meses, anos, séculos, à secretária, a roer a unha, rodeado de rimas, de impotências e de vulcões bem intencionados.” Apontou o escopo a uns quantos colegas no seu tempo; mas hoje em dia também temos casos caricatos. Há uns meses um resenhista chamado José Riço Direitinho escreveu sobre um romance xebre, O Coro dos Defuntos; parece-se quase com Procissão dos Defuntos, mas as comparações terminam aí. Bem, não para o Sr. Riço Direitinho: ele achou por bem comparar favoravelmente o autor a Aquilino. Porquê? Porque ele usa uns quantos regionalismos (como, de resto, já Dom Tarouco os usava em 1893). Semelhanças suficientes para o julgar um “romance evocativo da obra do mestre” com uma “linguagem aquilineana” (sic). Para enfatizar isso ele refere um glossário no final.  
   Mas Aquilino não escrevia glossários para leitores; os outros é que escreviam glossários para os leitores de Aquilino.
   O seu conselho era: ou tentassem percebê-lo pelo contexto ou consultassem um dicionário, por que razão existem. O que decerto nunca fez foi retirar agência ao leitor e decidir por ele como se fosse uma criança. Percebeu o efeito nocivo da subtil comparação de Riço Direitinho? Para alçar um recém-chegado banal à peanha, desbaratou a reputação de um grande escritor. Um caso semelhante ocorreu quando a Quetzal imediatamente afirmou que Galveias “está entre os grandes romances alguma vez escritos sobre a ruralidade portuguesa.” Como é já podiam ter a certeza disso quando ele ainda nem havia começado o teste do tempo? É a máquina da hipérbole; o resenhista é só mais outro empregado no departamento de marketing.
   Realmente, fez bem em sair do Diário Popular em 1969. “Depois, num claro dia de Primavera, decidi partir. Na minha frente, sorumbático, um livro de poemas já se apossava do quarto, das estantes e da luz da manhã. Disse: – Não. E não li. Nem escrevi. Nem desejei escrever mais uma linha.” Mas deixe-me continuar a partilhar consigo as minhas reflexões. Resenhar é estar casado com o mercado literário: deixa de se escolher com quem se faz amor: tem de se voltar para o mesmo corpo todas as noites, aquele corpo que já não desperta qualquer tesão. Todos os vestígios de vontade somem e a rotina declara vitória. Porque é que alguém rejeita a promiscuidade da escolha, fora do mercado? É por isso que gosto de escrever sobre livros intraduzidos; a celebração amadora afigura-se menos exploratória do que a resenha profissional.
   Não posso fazer esta convicção recuar até si; já a possuía muitos anos antes de o conhecer. Um gosto pela solidão, um temperamento virado para a estranheza, um cultivo de conhecimento arcano, uma suspeita pela aprovação maioritária, uma simpatia pelos mais fracos – seja o que for, foi assim que a minha personalidade se desenvolveu. Mas o seu exemplo dá-me a tenacidade para prosseguir nesta senda, gosto sempre de conhecer os meus antepassados.
   Fora do mercado foi onde viveu os últimos 20 anos. No fundo, foi um divulgador. Houve uma altura em que foi admirado pelo seu esforço. Herberto Helder escreveu-lhe na já citada carta, “Você, com o seu interessa pela literatura de língua inglesa, está a prestar à cultura nacional – afogada nas já tradicionais importações de França – um esplêndido serviço.” O Diário I, publicado em 1972, vinha cheio de entradas sobre escritores, sobretudo sul-americanos, quase nada conhecidos entre nós. Quantos já terão perdido uma tarde para requisitar o seu espólio na Biblioteca Nacional de Lisboa e ler algumas das cartas que recebeu de Mario Vargas Llosa, Guillermo Cabrera Infante e afins? Entretanto os portugueses iam ignorando estes autores porque de França não chegava o beneplácito. Ontem Paris, hoje Nova Iorque (e Londres). Também traduziu muito: Exilados de James Joyce, Na outra margem, entre as árvores, de Hemingway, Dois negros em Estherville, de Erskine Caldwell, O Garoto era um assassino, de Caryl Chessman, Uma agulha no palheiro, de J.D. Salinger, Henderson, o rei da chuva, de Saul Bellow. Sabia que algumas dessas traduções ainda andam por aí a ser lidas?
   O princípio da divulgação é o amor ou o egoísmo? O divulgador, afinal de contas, persegue o que ama, e o que ama é um espelho de si mesmo. Mas actua nas margens, foca-se naqueles por quem o mundo não se interessa, investe tempo, dinheiro, esforço, sem certeza de recompensa. Quem pediu a Régio a Presença? Quem pediu a Gaspar Simões uma biografia sobre Pessoa? Sem dúvida, é o amor.
   A divulgação uma luta contra a entropia; tem de se estar a gerar energia constantemente, a combater a segunda lei da termodinâmica. A qualidade por si só não basta. Até Pessoa, para se afirmar, precisou que muitos admiradores por muitos anos dessem à manivela antes de se tornar um motor de movimento perpétuo. Relendo os seus diários, há tanto que parece profético: “Estou contente por ser assim mesmo. Volúvel. Sem amizades que me escrevam loas no funeral,” escreveu a 29 de Dezembro de 1971. Mas as amizades perpetuam a memória. Onde estão elas neste dia, para o relembrar, volvidos 25 anos desde aquele 23 de Agosto de 1989 quando faleceu?
   É triste viver num país sem memória, lamentou algures Eugénio de Andrade. Ah, esse queixume! Com a sua habitual visão histórica das nossas falhas endémicas, deve estar a pensar naquela carta de Mário de Cesariny onde ele lhe relatou como a obra de António Maria de Lisboa foi parar ao lixo da Câmara Municipal de Lisboa, e como mal se salvou. Sim, é um eterno queixume connosco. Já Antero repreendia Eça por não ler os clássicos. Ainda estamos todos nesse caixote de lixo a tentar salvar os nossos artistas do esquecimento. Importar-se pela arte neste país é ser-se lixeiro?
   Um resenhista, qual um bácoro, come o que o dono lhe despeja à frente. O divulgador, qual um gourmand, selecciona, anima-se com o exótico, acrisola um gosto apurado. O divulgador persiste porque acredita, porque quer corrigir uma injustiça, porque tem a petulância de pensar que detém um segredo que os outros têm ignorado até agora. E realmente muitas das obras que trouxe a lume eram-me desconhecidas e enriqueceram a minha compreensão da história da literatura portuguesa. Volto a esta entrada no diário, escrita a 11 de Outubro de 1971 em Salamanca:

   Atacado por uma violenta fúria de desvirginação, há um ano que desenterro pacotes e livros poeirentos amontoados na penumbra de armários e caixotes. Leio, sôfrego, velharias e relíquias portuguesas. No pequeno mundo das curiosidades lusófilas depositadas ao acaso das doutrinas nos sótãos da Faculdade, há muito que ler. E foi assim que, primeiro, consegui a remoção dos livros desde o Palácio de Anaya para as caves da Hospedaria de San Bartolomé. Seguidamente, por meses de frio e neve, lá fui ordenando a livralhada, abri, à luz do dia, os pacotões carcomidos de traça, libertei as glórias da pátria. A última etapa será a criação de uma biblioteca bem fornecida em local condigno. Presto a devida homenagem aos portugueses de Salamanca. Expondo-lhes o trabalho paciente para que os leiam e os conheçam.

   O maior sacrifício foi a sua própria obra. Olhando para a sua produção pessoal, percebe-se que a sua ficção estagnou a partir dos anos 70. Publicou o finíssimo volume d’Os Cranioclastas em 1972 e depois só voltou a publicar em 1987 Vida e Obras de Dom Gibão. Pareceu ter tudo para ser o típico ficcionista de sucesso moderado: publicou umas novelas nos anos 60 e o romance A Viagem em 1971, os quais colheram louvores de vários pares. Aí vinha um futuro promissor! Depois, no ano seguinte, saiu o Diário I onde deitou tudo por terra. Não o percebi da primeira vez que o li, mas agora torna-se-me claro que foi uma carta de despedida, cheia de verrinas, ao establishment, a sua forma de dizer que abandonava o jogo.
   O seu inimigo, o tempo. A 15 de Março de 1964 escrevera esta vaga entrada: “Ando à toa, atrás de uma ideia. Vem, esconde-se, foge ou confunde-se no rebuliço de viver. É a ideia de um livro, ou de um conto. Uma narrativa. Mas quando poderei escrevê-la?” Provavelmente nunca; talvez ainda não o soubesse, então, mas nunca teria tempo. Um ano antes havia escrito que lhe faltava “vontade para começar a escrever o que vou anotando, informidade de livros que nunca cheguem à luz do dia.” Estava-se a 10 de Maio de 1963 e ainda a cinco longos anos da publicação da sua primeira novela, Três Semanas em Maio. Mas já então começava a virar-se para a arqueologia. Entre 1980 e 1983 dirigiu a BNL e aproveitou esse cargo para estudar, encontrar, preparar obras ignoradas. Um amigo recentemente chamou-me atenção para o facto de que até convidou Mário Cesariny a organizar Horta de Literatura de Cordel. Este é o tipo de detalhe que espero descobrir sobre si; estava sempre presente quando se tratava de literatura popular, desestimada, malvista. Foi uma boa táctica: delegar a sua curiosidade a outrem. Através da Imprensa Nacional da Casa da Moeda publicou uma valiosa série de obras cuidadas: aquela adenda à História Trágico-Marítima intitulada Naufrágios, viagens, fantasias e batalhas; uma edição de Contos e Histórias de Proveito e Exemplo, de Gonçalo Fernandes Trancoso, ao qual livro Ettore Finazzi-Agrò chamou a “única e verdadeira colecção de contos impressa em Portugal no século XVI” e que está esgotado hoje em dia; os dois volumes Novelistas e Contistas Portugueses abrangendo os séculos XVI ao XVIII; a Autobiografia da freira seiscentista Antónia Margarida de Castelo-Branco; o então inédito romance de cavalaria Crónica do Imperador Maximiliano, com a promessa de que publicaria a nossa restante ficção cavaleiresca em edições críticas. Infelizmente, jamais surgiram, excepto o Memorial das proezas da segunda Távola Redonda, de Jorge Ferreira de Vasconcelos, hoje ainda disponível graças à Lello Editores. Pelo meio publicou vários volumes de estudos histórico-literários. A sua ensaística foi um dos tesouros do género entre nós, a par da de Sena ou de Casais Monteiro.
   Não, meu caro Palma-Ferreira, não podia sobrar tempo para si próprio, para a sua obra. Pensava que por abandonar os jornais teria tempo para si, mas enfiou-se numa prisão ainda maior: a cela da celebração. Ou porque quis, ou porque foi ficando assim sem querer, acabou dedicando um terço da vida aos outros, com um altruísmo que a nossa época ensimesmada, obcecada por rivalidade, não compreende nem perdoa.
   O que é o sacrifício em prol dos outros? Escolher o passado é escolher o que se quer achar. É ir atrás do que se quer, em vez de estar à espera, como uma prostituta pelo seu próximo cliente. Quando escreveu, “Sublinho, em primeiro: não tenho nenhum público. Nem nunca quis ter público,” acredito que é um dos raros casos em que um autor formulou tais palavras com honestidade. Porque realmente parou de escrever e dedicou-se aos outros. Mas não pense que isso resolveu coisa alguma. Apenas atrasou um pouco o oblívio, o seu e o dos seus amados. Casais Monteiro deu a conhecer ao mundo Pessoa; isso não o salvou. E o senhor Palma-Ferreira certamente não descobriu ninguém da magnitude de Pessoa. Mas talvez nem o quisesse, e talvez não lamente o seu próprio esquecimento. Um bom divulgador retira-se do palco para os outros brilharem. No fim, a serpente marítima arrasta sempre Laocoonte e os filhos, arrasta-os para as profundas do abismo. Morre o homem físico, sobrevive a estátua, para ser desenterrada mais tarde. A sua obra circula, ainda que sobretudo em alfarrabistas, ao alcance de leitores que queiram ser instruídos, deslumbrados e entretidos. E eles, assim como eu, não deixarão de lhe agradecer pelas suas valiosíssimas lições.

Atenciosamente,
Luís Santos-Rosa.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Um Auto-de-fé Americano





   Estamos em 1953, os Nazis capitularam, a democracia triunfou e o procurador público Roy Cohn anda pela Europa livre a queimar livros subversivos. Ainda vamos nas primeiras páginas. Daqui para a frente as coisas só melhoram no excelente romance de Robert Coover, The Public Burning.
      José Saramago insistia que nunca escrevera romances históricos, esse passatempo de catedráticos aposentados inofensivos. Quanto tempo deveria passar para algo se tornar “passado histórico,” perguntava ele: 200 anos? 100? 40? O que era Levantado do Chão? Pertencia O Ano da Morte de Ricardo Reis ao género quando à época ainda havia pessoas vivas que haviam visto Pessoa delirar num catre do Hospital São Luís? Um romancista histórico, para ele, tenta escrever da perspectiva do período em questão, fiel à sua mentalidade, um processo avesso ao de Saramago, que sobrepunha a sua personalidade ao rigor historiográfico. O romance histórico sofre de um estigma porque parece fugir às responsabilidades da literatura; porquê criticar o que já passou quando existe a actualidade à espera? Ainda pior é quando o autor transforma o passado numa alegoria velada do presente, tornando-o algo a ser decifrado. Este recurso é comum em regimes totalitários: nas redondezas de um ditador, o escritor torna-se historiador. Sofre a História, porque um escritor fabuliza quando pensa que historiza, e sofre a crítica ao presente no que ela perde de urgência e expressividade imediata. Saramago não podia considerar Memorial do Convento um romance histórico porque na maneira como lidava com o tempo estava todo uma visão do mundo: “Ver o tempo de ontem com os olhos de hoje.” (1)
   Se uma reconstituição de época e mentalidade faz um romance histórico, então The Public Burning é um romance histórico, embora histérico seja um modificador muito melhor. Publicado em 1977, dramatiza os últimos dias do casal Julius e Ethel Rosenberg, executados a 19 de Junho de 1953 por alegadamente espiarem para o Kremlin, nomeadamente revelarem documentos relativos à construção de bombas atómicas, terminando a Pax Americana. Numa entrevista dessa época, Coover afirmou acreditar na inocência deles: “Logo em 1966 pensei que a execução dos Rosenbergs havia sido um evento cimeiro na história americana que nós de certo modo havíamos conseguido esquecer ou reprimir. Senti que era importante ressuscita-lo e observá-lo de novo. Pela altura em que acabei de pesquisar esta coisa estava convencido, primeiro, de que eles não eram culpados, e, segundo, mesmo que tivessem sido, de que a punição havia sido histérica e excessiva.” (2)
   Os Rosenberg habitavam a tundra da história há menos de 25 anos quando Coover os resgatou para assustar as consciências dos seus contemporâneos. Então descobriu porque é que os romancistas históricos preferem lidar com séculos remotos. Apesar de críticas negativas, (3) o livro tornou-se um êxito de vendas, o que deixou a Viking Press acagaçada com um massacre de processos de difamação: Coover tomara uma decisão pioneira mas arriscada e reconstruiu os últimos dias dos condenados com fidelidade e densidade, despejando para o livro os quilolitros de pesquisa que romancistas só despejam nos tais romances históricos quando querem demonstrar a sua autoridade em penteados medievais. Mas Coover estava a escrever sobre eventos tão próximos que isso significava incluir, e muitas vezes satirizar, dezenas de pessoas verdadeiras – o presidente Dwight Eisenhower, Allan Foster Dulles, Roy Cohn, Jack Benny, Walt Disney, Joseph McCarthy, William O. Douglas, o vice-presidente Richard Nixon e a esposa, Pat – as quais algumas ainda respiravam e tinham acesso a advogados. A Viking Press não fez publicidade ao livro, rezou para que não causasse estardalhaço, o que diminuiria o risco de alguém em Washington descobrir que ele existia, e deixou a primeira edição apagar-se pacatamente como um pôr-do-sol. A reedição só saiu em 1998, pela graça da Dalkey Archive Press. Não deixa de ser irónico que um romance sobre caças às bruxas tenha sido ele mesmo vítima do medo da editora em expressar o direito à sátira.
   A Viking Press, que de Leif Eriksson pouco tinha, temia sobretudo retaliações de Nixon, acabado de sair da Casa Branca devido ao escândalo Watergate; felizmente a exoneração ocupou-o demais para tentar travar bagatelas como liberdade de expressão e licença poética. A literatura americana dos anos 70 tinha uma atracção por Nixon. Enquanto escrevia o livro, Coover publicou na American Review a novela O que aconteceu a Gloomy Gus, que imagina um Nixon que segue uma carreira futebolística em vez de política. (Trad. Rui Wahnon, Presença, 1989.) Antes Philip Roth já o parodiara no hilariantíssimo Our Gang (1971). Mas Roth escreveu sobre um tal de Trick E. Dixon, com toda a distância respeitável da paródia clássica. Roth fez um livro divertido, mas Coover montou um vaudeville sobre a mitologia americana que ganha a sua força de uma fusão delirante de carnaval e naturalismo.
   A sua importância não se esgota numa posição moral que dependa da inocência dos Rosenberg. Com essa crença Coover energizou-se de indignação, a indignação que segundo William Gaddis animava todo o grande escritor, indignação contra o aproveitamento de mitos nacionais, a transformação da política em entretenimento, o poder do lóbi militar, o devaneio de destinos divinamente decretados, a ilusão de que a História obedece a esquemas, a subalternização da linguagem, e a paranóia da Guerra Fria que atrofiou qualquer diálogo político adulto durante anos, erguendo sobre o cadáver da plurivocidade um maniqueísmo magniloquente.
   Neste romance que ele concebeu como se tivesse “sido escrito por toda a nação ao longo da sua história, como se as frases tivessem estado a formar-se durante todo este tempo, acumulando-se rumo a esta experiência,” seguimos duas narrativas interpoladas: primeiro um narrador omnisciente relata-nos a fatigante batalha entre o Tio Sam, personificação do espírito americano, possuindo os presidentes como hospedeiros temporários, e o Fantasma, corporização da ameaça comunista, pelo mundo fora, onde quer que a ameaça vermelha acumule poder. O Tio Sam é um verdadeiro super-herói, mas não consegue deter sozinho o avanço da ameaça comunista. Não só na América do Sul e dentro do Muro de Berlim, mas também em Times Square, Nova Iorque, o destino da humanidade se decide: aí se prepara as festividades da execução dos Rosenberg, um evento tão público quanto bíblico, com cadafalso para as cadeiras eléctricas, para que a multidão se regozije com a morte dos apóstatas. No meio disto titubeia um jovem e confuso Nixon, observador nos bastidores, tentando perceber o seu papel no fluxo de eventos, procurando poder próprio e lidando com a necessidade de encerrar o espectáculo com um discurso que restaure a fé dos americanos.
   Em romances estruturados assim, com dois pontos de vista diferentes, isso serve para criar contra-narrativas, quebrar certezas, ferir de morte a objectividade. Narradores interpolados trazem atenção ao facto de que não existe uma voz única que explique a realidade. Coover não cai nessa porque a sociedade que retrata só autoriza uma versão, uma dimensão e uma emoção – euforia patrioteira. Como o tal romancista histórico de Saramago, Coover reproduz a mentalidade deste período, com todos os seus slôganes, canções, artigos, rádio, televisão, leis, bens de consumo e cultura popular, para mostrar como o patriotismo infectou o discurso em todos os estratos, desde a Casa Branca à casa de banho do café da esquina. Mas por detrás da celebração da execução, com passagens líricas e retórica engrandecedora, ouve-se Coover a gargalhar enquanto pergunta, “Como é que nós americanos alguma vez acreditámos nesta merda?”
   A segunda narrativa, na primeira pessoa, segue Nixon, por agora vice-presidente mas já pensando em algo maior, tentando cair nas boas graças do Tio Sam enquanto começa a apaixonar-se por Ethel, a qual quer salvar. Coover na já citada entrevista explicou que “comecei a sentir a necessidade de uma voz mais quieta para alternar de vez em quando. Queria alguém que vivesse dentro da mitologia, aceitando-a, e próximo do centro, mas não totalmente no centro, desviado um pouco para a margem, um observador.” Quando se vai procurar normalidade a Nixon, então é porque o romance é mesmo extravagante.
   Este não é um romance histórico, mas é decerto um romance sobre história, ou melhor, sobre como os EUA são a progénie da Europa. Não nos devemos espantar que um romance sobre um auto-de-fé moderno abra com uma purga de livros proibidos, nem que Nixon se preocupe com a reverência de Eisenhower por livros queimados. “O Presidente estava claramente confuso acerca deste tópico. Isso era porque, à excepção deste ou daquele western, ele nunca havia lido livros, e por isso respeitava-os mais do que devia. Até os westerns eram apenas partes dos exercícios associados ao reforço dos seus superpoderes – ele geralmente saltava por cima de tecnicalidades sobre tais coisas como padreação, procedimentos jurídicos e prospecção, todas as partes interessantes.” Como o título indica, há muito do Santo Ofício nestas páginas. Arthur Miller, em 1953, na peça As Bruxas de Salem, havia feito uma alegoria sobre o Macartismo usando as caças às bruxas do século XVII. Quando escritores vivem em ditaduras…
   Mas remeter o Macartismo para um evento insólito e efémero na história dos EUA é como dizer que era uma aberração, o que deverá ter parecido verdade quando Joseph McCarthy depressa se autodestruiu. Associá-lo ao passado era dizer que ele próprio já passara à história e portanto era inofensivo. Uma maçã podre não invalida a macieira. Mas para Coover as raízes sempre cresceram em solo conspurcado.  
   Coover pertence à primeira geração de ficcionistas americanos cientes dos EUA enquanto superpotência. Ao passo que os seus predecessores adaptavam a crítica social aos esquemas locais de Balzac e Zola, a geração de 1960 percebeu que falar da América é falar do papel da América no mundo, o que nunca teria feito sentido para Faulkner, que lidava com o legado histórico do Sul, ou com Fitzgerald, que em O Grande Gatsby nos deu o típico romance europeu sobre conflitos de classe. Hemingway preferia touradas espanholas e cumes africanos, e Henry James passou a vida a tentar ser inglês e a escrever sobre americanos bacocos deslocados na superior e sofisticada Europa. E talvez nenhum americano tenha estado mais próximo da europeização do que Ezra Pound; isso apenas lhe custou tornar-se um fascista. Esse é o ponto de partida de Coover: os americanos são europeus no pior: no racismo, no fanatismo religioso, na ingerência política, no militarismo, no imperialismo. O historiador Robert T. Hughes defende que um dos mitos subjacentes da mentalidade americana é o mito da Nação Escolhida por Deus. Encontramos um exemplo disso no senador Albert Beverage em 1900, justificando a guerra das Filipinas, usou este mito da Nação Escolhida. Segundo ele, Deus “ tornou-nos organizadores-mestres do mundo para estabelecermos sistemas onde o caos reinasse. Ele deu-nos o espírito do progresso para sobrepormos as forças da reacção pela terra afora. Ele tornou-nos exímios em governação para podermos administrar o governo por entre povos selvagens e senis.” Embora enroupado em retórica humanista, para Hughes, “Aqui encontra-se apenas um apelo ao poder, dominação e controlo” igual a qualquer discurso imperialista que reduz os subjugados a inferiores que devem ser domados para o seu próprio bem. (4) A sofisticação que James procurava é mera nostalgia por algo que nunca existiu. A ideia de que os EUA são uma continuação da Europa foi um tema caro aos coevos de Coover: vemos isso em The Sot-Weed Factor, de John Barth, em Mason & Dixon, de Thomas Pynchon, em Mumbo Jumbo, de Ishmael Reed; e mais recentemente na heptalogia “Seven Dreams” de William T. Vollmann, que estende o inquérito sobre o que os EUA são ao alegado Velho Mundo.
   A América de Coover sabe-se observada, avaliada, julgada pelo mundo; precisa de encorajamento, fraqueja na sua missão histórica, enquanto nação escolhida, de liderar o mundo para uma nova Idade Dourada, porque as forças do Mal estão a triunfar mais do que deviam uma vez que, afinal de contas, Deus não está do lado deles: os sequazes do Fantasma crescem à volta do globo, mais países se tornam comunistas, os Soviéticos detonam uma bomba atómica, o que rouba a Washington a hegemonia atómica, a Guerra da Coreia começou, e a China adquiriu poder de veto na ONU. Preocupa-se o narrador omnisciente, “As coisas não têm corrido bem desde que a nova guerra começou – especialmente desde que os Vermelhos chineses chegaram aos magotes através do Yalu e puseram os nossos rapazes em fuga – há necessidade de distracções, e quem sabe? bem feito, pode trazer um novo entusiasmo ao mundo, erguer corações, pôr as coisas a andar de novo, talvez até trazer a vitória aos Povos Livres da Ásia, coragem aos operários revoltos na Europa do Leste escravizada, fertilidade e reduções fiscais às nações, tudo isto é possível.”
   Coover expressa essa continuidade entre a Europa e a América através da metáfora do auto-de-fé. Mas a ele não lhe interessa apenas, como a Miller, a morte de inocentes; é sobretudo o auto-de-fé enquanto festividade que dá fôlego ao livro. Hoje em dia esquecemo-nos de que os autos-de-fé eram eventos preparados com meses de antecedência: havia protocolos, procissões com hierarquias, discursos, interacção com o público, vários passos numa intrincada cerimónia que podia levar dias a realizar. É esse aspecto do auto-de-fé como antepassado do espectáculo de massas que fascina Coover. “O livro começou como uma pequena ideia teatral que se tornou uma série de actos de circo algo espalhafatosos,” disse Coover na entrevista. E que truão criou ele! O narrador omnisciente dá-nos malabaristas, palhaços e acrobatas, e canções, poemas e notícias, como um John dos Passos a escrever sob o efeito de pó-de-anjo, e o seu palavreio é sempre patrioteiro e preconceituoso contra os Rosenberg, falando em tons hiperbólicos como políticos, pregadores ou comentadores desportivos. O narrador não está aqui para descrever, indicar ou explicar; ele está aqui para celebrar o poderio americano e persuadir o leitor de que os EUA têm um mandato divino para governar o mundo.
   A preparação da execução dos Rosenberg é lenta, primorosa, carinhosa até, tão detalhada como as instruções no Regimento do Santo Ofício de 1640. Como convém a um espectáculo, o governo contrata Walt Disney para organizar o evento; Cecil B. DeMille preside ao Comité de Entretenimento. Hollywood é convocado em massa para dar glamour à fritura dos bodes-expiatórios. A revista TIME, antropomorfizada em Poeta Laureado Nacional, canta os feitos desta data. Actores desfilam pelo recinto. Estrados são erguidos para os convidados importantes. Nada disto destoaria na praça do Rossio no século XVII:
  
O cerimonial era complexo e cuidadosamente pensado e preparado. Construía-se o palco de representação, organizavam-se e decoravam-se os diferentes espaços para acolher autoridades e réus, asseguravam-se, fora do olhar dos curiosos, estruturas para satisfazer necessidades fisiológicas e para servir refeições às autoridades. Separavam-se autoridades, actores forçados, e espectadores e perpetuava-se a ordem estabelecida. O auto da fé apresentava-se como um espectáculo promovido pelo poder, que visava veicular os princípios religiosos, sociais e ideológicos para assegurar a manutenção da ordem dentro da sociedade. (Isabel Drumond Braga, Viver e Morrer nos Cárceres do Santo Ofício, Esfera dos Livros, página 220, 2015)

   Coover não estava a exagerar. Os leitores podem esperar um tom maravilhosamente pueril, porque a América que ele parodia é pueril. A execução dos Rosenberg, no dealbar da Guerra Fria, coincidiu com um recrudescimento da devoção católica. “Uma democracia não pode existir sem uma base religiosa,” declarou o presidente Eisenhower certa vez. Foi apenas em 1954 que o juramento à bandeira americana, instigado por ele, começou a incluir a frase “Uma Nação Sob Deus,” e em 1956 o Congresso decidiu que o lema “Em Deus Confiamos” deveria ser o lema nacional, o qual passou a marcar as notas de dólares. Ele até agraciou uma tiragem de selos. Entretanto Allen Dulles mandou inscrever na parede da sede da CIA o versículo bíblico: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” Henry Luce (dono da TIME e que no romance aparece transfigurado como Mãe Luce), também gostava de citações bíblicas. Mas não eram só políticos e jornalistas a darem este toque religioso ao discurso americano. “Porque haveríamos nós de fazer um plano quinquenal para nós próprios quando Deus parece ter um plano milenar pronto à nossa espera?” perguntou o historiador Daniel J. Boorstin. O tom bíblico não andava às escondidas. “Não devemos andar confusos sobre o assunto que confronta o mundo actualmente,” alertara o presidente Truman antes de Eisenhower. “É a tirania da liberdade… e ainda pior, o comunismo nega a própria existência de Deus.” Esta renascença foi uma reacção à pujança da União Soviética, cujo rápido avanço tirou confiança aos americanos e mobilizou o regresso a valores tradicionais e conservadores. O Reverendo Billy Graham, falando como o Tio Sam no romance, não menciona uma entidade sinistra chamada Fantasma, mas sabia dividir o mundo entre bons e maus, sem complicações: “O comunismo é… orquestrado por Satanás… Acho que não há outra explicação para as imensas vitórias do comunismo em que eles parecem conseguir enganar-nos a todo o momento, a não ser que lhes tenham sido dados poder e sabedoria e inteligência sobrenaturais.” Graham tornou-se um convidado constante na Casa Branca e teve um papel preponderante em criar a simplista mitologia de uma América inocente. Eisenhower também gostava de linguagem maniqueísta e simples dicotomias: “As forças do bem e do mal estão reunidas e armadas e opostas como raramente o estiveram antes na história. A liberdade enfrenta a escravatura, a luz a escuridão.” Em nome dessa liberdade, Roy Cohn, um dos procuradores públicos responsáveis pela condenação dos Rosenberg, andou pela Europa ocupada pelos Aliados, a investigar as bibliotecas da Agência de Informação dos Estados Unidos; encontrando uns 30,000 livros que não gizavam com a Nova Ordem, mandou removê-los, sem grande oposição: escritores banidos incluíam, para dar uma curta lista, Langston Hughes, Dashiel Hammett, John Reed, Henry David Thoreau, Herman Melville, Thomas Mann, Albert Einstein, Sigmund Freud – nem escapou Thomas Paine, um dos pais fundadores dos EUA e autor de Os Direitos do Homem. (5)
   Pueril? Coover?
Se o romance de Coover é pueril – e é-o, muito, exuberantemente, sem pedir perdão – é-o porque a puerilidade tornara-se a única forma de retratar realisticamente uma época onde adultos haviam perdido toda a noção de responsabilidade e seriedade. Se a narrativa se divide entre um narrador jingoísta e um oportunista sem escrúpulos, isso é porque naquela altura não havia margem para vozes de dissensão: ou eras pela América, ou contra ela; ou tinhas fé no governo, ou eras um inimigo. Longe de ser uma extravagância com toques de realismo mágico (ou fabulismo), o romance de Coover pode muito bem ser um dos mais sóbrios herdeiros do realismo oitocentista, adaptando a escrita ao único realismo possível do século XX: um realismo totalmente irreal, surreal, como a contemporaneidade.
   As imagens religiosas enchem o livro. O ficheiro do processo contra os Rosenberg, que Nixon estuda, é descrito por ele como um diálogo entre J. Edgar Hoover e Deus. O evento é descrito como um ritual mágico para celebrar o aniversário de quando os Rosenbergs “assinaram o seu pacto diabólico.” O Times Square, nesse sentido, será “a consagração, a nova carta da ordem moral e social do Mundo Ocidental, o precedente sobre o qual o futuro está a ser construído para assegurar paz no nosso tempo!” E associando a cerimónia da lavagem dos pés praticada na Semana Santa, o Tio Sam explica a Nixon, “Vamos lá para lavar os nossos pés, filho!” Ao mesmo tempo que é um lugar mágico, de ritual, o Times Square é um espaço onde se consubstancia a forma de viver americana, onde o marketing, a performance e o consumismo contaminam tudo. “A tradição santificou-o e o investimento certificou-o. Os dramas da nação são encenados aqui, as suas verdades testadas e emitidas, as suas eleições verificadas, as suas virtudes materiais publicitadas – quem não se estacou em espanto perante o famoso letreiro da pastilha elástica Wrigley, os círculos de fumo e cascatas gigantes, a garrafa de uísque inclinada que nunca se esvazia?”
   Os autos-de-fé criaram sociedades sem diálogo, sociedades de oradores e público, explicadores e alunos. Num sermão do púlpito as palavras fazem-se num sentido só. Um interrogatório tem perguntas e respostas, mas as perguntas estão pré-estabelecidas no Regimento e as respostas têm de agradar ao interrogador; não há espontaneidade mas correcção. Até o advogado de defesa do réu tinha, por fim, o objectivo de ajudá-lo a confessar as suas culpas. O objectivo era tornar cada homem um replicador do discurso oficial, o que Coover compreendeu pois o romance é bastante repetitivo. (6) Os Rosenberg não estão apenas isolados porque passam o romance inteiro fechados em celas individuais; estão isolados porque não encontram quem repita as palavras deles. A vontade da nação uniformizou-se contra eles e asfixia a divergência, de que é exemplo a ostracização do Juiz do Supremo Tribunal William O. Douglas, a quem o romance é dedicado. Coover dá-nos uma América onde, ao invés de interlocutores, há falantes e ouvintes: falantes pregando uma única doutrina, e ouvintes sedentos de certezas reconfortantes.
   Desde o início que a sua obra deu azo a esta visão desencantada. No primeiro romance, The Origin of the Brunists, um zé-ninguém sobrevive a uma explosão dentro de uma mina, torna-se um messias e funda uma seita religiosa que acredita na iminência do Apocalipse, trazendo o caos a uma pequena cidade mineira. No segundo, The Universal Baseball Association, Inc., J. Henry Waugh, Prop, entra na vida secreta de um aficionado do basebol que se deixa sugar para dentro de um mundo ficcional, o qual narra com a ostentação de um comentador desportivo. Aos poucos o criador desaparece da própria criação e a ficção vai ganhando força, ofuscando o mundo real ao mesmo tempo que adquire contornos de uma religião com a própria mitologia e rituais. Parece-me que para Coover tanto a religião como o desporto são formas semelhantes de manipulação de massas, de criação de mitos modernos. Este tema atingiu a apoteoso em The Public Burning, virando-se para os meios de comunicação como os fabricantes da verdade, ou da opinião, que é o mesmo.
   Um auto-de-fé é uma representação, com fatos, procissões, máscaras, papéis, fórmulas a serem recitadas. Segundo Isabel Drumond Braga

Para divulgar a cerimónia, a partir de 1618, imprimiram-se as chamadas listas dos autos da fé, nas quais constavam indicações, tais como nome, idade, situação matrimonial, naturalidade, crime e respectiva pena dos condenados. Estes documentos eram vendidos e serviam de guião ao espectáculo, cuja dimensão teatral deve ser salientada.” (Viver e Morrer nos Cárceres do Santo Ofício, 220)

   O romance aproveita a coincidência de vários intervenientes na execução terem sido actores: Ethel foi actriz antes de se tornar uma activista; Nixon entrou numa peça de Ayn Rand no colégio. Há secções do livro tratadas como peças teatrais. Nixon até considera a execução “uma pequena peça de moralidade para a nossa geração!” E segundo ele “a justiça é entretenimento.” Aliás, todo o evento é uma performance.

Não só estavam todos neste caso desde o Juiz para baixo – de facto, praticamente toda a gente na nação, dentro e fora do governo, eu incluído – a comportar-se como actores presos numa peça, mas ainda por cima parecíamos estar conscientes do que estávamos a fazer e ao mesmo tempo da nossa inabilidade, dedicados como estávamos a um propósito maior, a um vasto guião por assim dizer, para agirmos de outro modo.

   Até o narrador omnisciente pensa que os Rosenberg se andam a preparar para este papel há anos. E quando Nixon dá o seu triunfante discurso, ele pensa apenas em entreter o público. “Eles que se riam, pensei eu. Esta é uma geração que quer rir, uma geração que quer ser entretida, graças aos filmes, TV – um mar de passividade, mas apenas nos favorece a nós nadadores. Encarei-os ousadamente, tanto a multidão quanto as câmaras, sentindo-me muito em controlo das coisas novamente, mais sábio do que pensava…”
   Aliás, como lemos na primeira página, sobre eles serem executados “na noite do seu décimo quarto aniversário de casados,” o narrador explica que

Há razões para isto: teatrais, políticas, caprichosas. Pensa-se que tal evento possa provocar confissões abertas: os Rosenberg, até agora mudos e impenitentes, poderão por fim, uma vez no palco e com as luzas ligadas, perceber o seu papel nacional e cumpri-lo, libertando-se a eles mesmos perante as suas mortes do misterioso poder negro do Fantasma, descarregando-se dos seus próprios pecados pelas pessoas, e assim poderão trazer outros também – ao altar, por assim dizer – para limparem as suas almas da mácula do Fantasma.

   A privacidade não existia nos cárceres do Santo Ofício; através de buracos secretos eram observados; e o auto-de-fé bradava aos sete ventos a culpa do condenado, envergonhando-o antes da morte. Mas Nixon, o nosso guia, encena aqui também aqui a grande saga sobre o fim da privacidade à medida que se revela a nós em total detalhe, culminando com ele a mostrar-se ao público americano com as calças baixadas enquanto mesmeriza os ouvintes com falinhas mansas, transformando o vexame numa força e antecipando a actualidade onde o mediatismo não conhece limites de decoro.
   Como os seus antepassados, o auto-de-fé em Times Square é um ritual comunal, purificador, não tanto para destruir hereges como para assegurar as mentes dos fiéis de que o Mal foi destruído. Quando D. João III introduziu a Inquisição por estas bandas, a sua intenção era promover união religiosa, obter a paz social através da uniformização: quanto menos diferenças, menos atritos. Mas se antigamente o objectivo era a criação do orbis christianus, um mundo cristão, sem heresias, os EUA no pós-guerra estão envolvidos no que Henry Luce uma vez chamou o “Século Americano:” uma hegemonia de ideias, crenças, hábitos, consumos exportados para o resto do mundo. A Inquisição clássica, pouco imaginativa, proibia jornais; a nova aproveita-os. Os jornalistas, editores e magnatas da imprensa sempre tiveram tremendo poder nos EUA para ditar modas e formar ideologias. O precursor de Luce foi o jornalista John L. O’Sullivan, que em 1845 assinou um artigo defendendo a anexação de novos territórios a oeste dos EUA, pois é o “nosso destino manifesto espalharmo-nos pelo continente dado pela Providência para o livre desenvolvimento dos nossos milhões que se multiplicam anualmente.” (7). Meses depois O’Sullivan deixou claro que bagatelas como legalidades pouco importavam. “Fora, fora com essas teias de aranha de direitos de descoberta, exploração, colonização, contiguidade, etc.” escreveu. “Para declarar a verdade de imediato na sua simplicidade nua… o nosso direito sobre Oregon… é pela graça do nosso destino manifesto espalharmo-nos e possuirmos a totalidade do continente que a Providência nos deu para o desenvolvimento da grande experiência de liberdade e autogoverno federativo confiada a nós.” Um século mais tarde, a Mãe Luce aplicaria o mesmo raciocínio a nível global.
   Assim como estrangeiros e estrangeirados criticaram a Inquisição Portuguesa – António Vieira, Montesquieu, Pio II, Francisco Xavier de Oliveira, Voltaire – assim no romance se ouvem ténues críticas estrangeiras à barbaridade da execução. Mas os não americanos não podiam compreender que a barbaridade tem a sua utilidade. O auto-de-fé foi um espectáculo para ser visto. Estrangeiros visitando Portugal escreviam com fascínio da pompa, da ostentação, do evento, e alguns convertiam-se à fé católica mediante o que viam. Segundo Isabel Drumond Braga, “a exuberância e o aparato do culto e das festas religiosas também os fascinou, motivando alguns a reduzirem-se à fé católica.” (8) Ver-se os Rosenberg a fritar é, antes de mais, ver os EUA exercerem o seu poderio; é uma declaração de que não serão brandos contra os inimigos da paz e do progresso. A Inquisição exercia o seu poder simplesmente aparecendo: com uniformes que a identificavam de imediato, visitava distritos, estava no cais à espera das naus, entrava nas tipografias e livrarias pedindo os roles de livros. Embora ela não tenha sabido usufruir das vantagens da então nascente tecnologia de massas – o jornal –mesmo assim irradiava a sua imagem para além do auto-de-fé condenando os confitentes poupados à justiça secular a usarem o sambenito, vestuário que os identificava como penitentes e que não podiam remover, prolongando o seu ostracismo social e reforçando a coesão social dando à população um sentimento de grupo contra eles, tendo sempre um inimigo visível e um aviso do perigo da heresia. A América não precisa de sambenitos, porque tem os meios de comunicação ultrapassando fronteiras e espalhando o poder do Tio Sam. O evento é filmado e transmitido.
   Neste romance sem heróis sobressai o Juiz Douglas; ele tenta adiar a execução porque os trâmites legais não foram seguidos e as provas não justificam a pena de morte. Isto põe o gabinete de Eisenhower em pânico: à pressa fazem-se diligências para anular o adiamento e prosseguir com a execução; o país precisa dela para a sua fortaleza moral, embora a loucura que o infectou seja talvez irremediável. No romance, Douglas é visto no final no colo do Tio Sam, a levar palmadas como uma criança travessa. Como na Inquisição, o processo de defesa era uma mera formalidade, uma cópia da justiça secular; na verdade todos os elementos deviam ajudar o réu a confessar a culpa, porque a acusação, como um rio, não podia inverter-se. Portanto o pessoal jurídico é apenas um adereço sem vida, seguindo guiões já escritos, formalizando apenas decisões tomadas antes do julgamento. Isto leva-nos para o que padre do século XIV Nicolau Emérico escreveu em O Manual dos Inquisidores, o guia dos futuros Inquisidores ibéricos:

A entrega à Justiça Secular é a última das penas pronunciadas pela Inquisição: a autoridade secular é a que decreta a pena de morte. É verdade que os Magistrados são excomungados e tratados como hereges se não executarem imediatamente os inculpados que lhes forem entregues. Pretendem com isto os inquisidores não terem parte alguma na morte do Herege, dado que as leis que condenam a perder a vida são tarefa da Justiça Secular. (Citado em Jorge Martins, Maria Gomes, Cristã-Nova, 117 Anos, A Mais Idosa Vítima da Inquisição, Vega, páginas 62-63, 2012).

   Espera-se que os Rosenbergs façam uma “confissão pública,” como se esperava no século XVII que um condenado se arrependesse dos seus pecados antes de arder, completando assim o complicado protocolo. O próprio Regimento antecipava a possibilidade de o condenado confessar já no cadafalso, havendo uma casa específica para o albergar a ele e ao confessor, embora isto fosse uma situação extraordinária, pois decerto confessa em falso quem enfrenta o fogo de frente. O próprio narrador omnisciente goza com o casal pela sua falta de fé: “Julius e Ethel Rosenberg escreveram centenas de páginas a cada um e ao mundo, e não há uma palavra nelas acerca de um Ser Supremo. Nunca mencionam o além, anjos, ou a Trindade Sagrada. Paz, pão, e rosas, é só disso que sabem falar: o seu sonho materialista.” Porém até ao grande dia muitos lhes oferecem “uma oportunidade para cooperarem.” O Regimento sobrepunha a confissão à punição. “Os Inquisidores, o mais breve que for possível, mandarão trazer ante si o preso, e o consolarão, e animarão que se disponha para examinar sua consciência, e confessar a verdade.” (9) Nixon, no meio de uma crise de propósito, querendo salvar tanto a sua carreira política como Ethel, é o último a visitá-la para a reconduzir ao rebanho. Só consegue uma nova humilhação, uma das muitas que o atingem no livro.
   Em 1738, o francês Merveilleux, observando uma procissão de condenados em Portugal, acentuou o que “os Portugueses, nesses dias, estão tão excitados com a glória da Inquisição como noutro tempo estavam as bacantes com a glória do Deus pagão.” (10) Não será um acidente que o romance também justaponha auto-de-fé e paganismo:

O próprio Times Square é um lugar sagrado americano há muito associado com festivais de renascimento; e a primavera ainda paira no ar. É até esperado que um exorcismo público feroz neste momento possa extrair o Fantasma dos seus esconderijos subterrâneos, força-lo a materializar-se, mostrá-lo claramente sob honesto brilho eléctrico de uma noite de farra à americana, dar ao Tio Sam algo para atingir para além de montes de chinocas distantes.

Torna-se assim num ritual solar, uma oferta aos deuses feita para que os tempos futuros sejam férteis e felizes. A ideia de que os hereges eram oferendas para aplacar a ira de Deus não passou ao jesuíta Gabriel Malagrida, cujo panfleto Juízo da verdadeira causa do terremoto, publicado com licença inquisitorial, pregava que um terremoto destruíra Lisboa por causa da sua impiedade; claramente não havia havido zelo suficiente em manter a nação no bom caminho. A lógica da Inquisição, portanto, é algo hedonista: mais nunca é demais. E embora Nixon, em imitação dos seus predecessores, acompanhe a execução dos Rosenberg com um sermão, o verdadeiro apogeu é uma gigantesca orgia báquica, durante um apagão, firmando a relação entre auto-de-fé e festa pagã. Assim, ainda que o narrador se congratule por os americanos serem os cidadãos da “nação mais racional (sob Deus) da terra,” eles são afinal primitivos supersticiosos com pretensões messiânicas e acesso a arsenal nuclear, o maior auto-de-fé público de todos.
   Uma das mais incríveis proezas de Coover é mostrar um conhecimento tão meticuloso da função simbólica, mítica, do auto-de-fé, de toda a parafernália deste ritual público, e integrá-lo perfeitamente na recente história americana. As correspondências são imensas e persuasivas. Segundo Robert T. Hughes, “o mito da Nação escolhida tornou-se parte permanente da consciência americana” desde os Puritanos no século XVII, pela mesma altura que um genial jesuíta louco profetizava um quinto império. Depois de lermos este romance, fica-se com a impressão de que os EUA nunca deixaram esse século obscurantista. O Macartismo, ao invés de ser uma aberração, surge como um dos esteios da mente da nação. Um romance carnavalesco, divertido como passar uma tarde num circo, The Public Burning explica o passado ao mesmo tempo que aponta para o futuro: o passar das décadas tem raspado as gorduras de absurdo para revelar o tutano de verdade. Lê-lo ensina mais sobre quaisquer eleições presidenciais do que ver a CNN.
   Ainda estamos por descobrir Robert Coover; obras menores como Uma noite no cinema ou não te esqueças disto e Rosa Brava passaram despercebidas entre nós. Porém ele é um escritor tão importante como Thomas Pynchon, Joseph Heller, Toni Morrison ou Donald Barthelme. Entre tantas novidades efémeras que nos chegam dos EUA, impelidas por dúbios prémios espampanantes, espero que um dia haja espaço para um autor recatado e pouco dado a modas cuja obra tem sobrevivido ao teste do tempo e à qual muitas dessas novidades são devedoras no que julgam ter de novo.

1) José Saramago,  A Estátua e a Pedra, Fundação José Saramago, página 79, 2013.

2) Org. Tom LeClair e Larry McCaffery, Anything Can Happen, University of Illinois Press, página 77, 1983.

3) Excertos dessas resenhas negativas podem ser encontrados em Tom LeClair, The Art of Excess, University of Illinois Press, página 106, 1989.

4) Robert T. Hughes, Myths America Lives By, University of Illinois press, página 37, 2004.

5) Os laivos religiosos no discurso político americano durante a Guerra Fria estão bem descritos no capítulo “The Guardian Furies” em Frances Stonor Saunders, The Cultural Cold War, The New Press, 2013.

6) “A cultura pop que absorvemos na infância – e eu incluiria todas as religiões pop também – continua a afectar o modo como respondemos ao mundo ou falamos sobre ele para o resto das nossas vidas. E esta nossa mitologia, esta Bíblia não escrita, está a ser constantemente reforçada por livros e jornais, filmes, televisão, reclames, políticos, professores, e por aí fora.” Anything Can Happen, página 71.

7) Myths America Lives By, página 106.

8) Viver e Morrer nos Cárceres do Santo Ofício, página 220.

9) Maria Gomes, Cristã-Nova, 117 Anos, A Mais Idosa Vítima da Inquisição, página 78.

10) Viver e Morrer nos Cárceres do Santo Ofício, página 221.